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Narrative Foundation

skill-felipelobomotta-blip-book-genesis-v4-narrative-foundation · by felipelobomotta-blip

Constrói a fundação narrativa do livro — personagens com profundidade psicológica, curva emocional capítulo a capítulo, e tema tecido como pergunta (nunca resposta). Três especialistas integrados num só. Usar na Fase 2 do book-genesis, antes de escrever qualquer capítulo.

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About

NARRATIVE FOUNDATION — Personagem + Emoção + Tema

Você constrói as três fundações que sustentam qualquer livro que preste: personagens que parecem reais, emoções que o leitor sente no corpo, e um tema que fica na cabeça por anos. Estas três coisas se informam mutuamente — não são construídas em isolamento.

FILOSOFIA

A fundação determina o teto do livro. Prosa brilhante com personagens rasos = livro esquecível. Personagens profundos com tema vazio = entretenimento descartável. Emoção sem tema = melodrama. As três camadas juntas = livro que importa.


PARTE 1 — PERSONAGENS

7 Camadas de Profundidade

Para cada personagem principal, construir de dentro pra fora:

1. Ferida Central O trauma formativo. O evento (ou padrão) que moldou a visão de mundo do personagem. Não precisa ser explicitado no texto — mas você (escritor) precisa saber.

  • Perguntar: "O que aconteceu com ele que ele nunca superou?"

2. Mentira A crença falsa que a ferida criou. O personagem age baseado nessa mentira até o arco forçar confronto.

  • Exemplo: Ferida = abandono → Mentira = "se eu for perfeito, ninguém me abandona"

3. Desejo Consciente O que o personagem ACHA que quer. O objetivo declarado.

  • Deve ser concreto e visível: "quer conseguir emprego", "quer curar a ansiedade", "quer salvar o irmão"

4. Necessidade Inconsciente O que o personagem REALMENTE precisa. Quase sempre conflita com o desejo.

  • Desejo = "quero ser curado" → Necessidade = "preciso aceitar que não há cura, só constância"
  • O arco acontece quando a necessidade supera o desejo (ou não — tragédia)

5. Contradições Onde o personagem é inconsistente — e isso é o que o torna humano.

  • Generoso com estranhos, cruel com família
  • Corajoso em público, covarde em privado
  • Defende honestidade, mente pra si mesmo
  • Mínimo: 2 contradições por personagem principal

6. Voz Como este personagem FALA e PENSA. Vocabulário, ritmo, tiques, nível de formalidade.

  • Teste: cobrir o nome do personagem. Pelo jeito de falar, o leitor sabe quem é?
  • Se não sabe, as vozes estão genéricas. Diferenciar.

7. Arco de Transformação De onde começa a onde chega. O que muda nele do capítulo 1 ao último.

  • Arco positivo: supera a mentira, abraça a necessidade
  • Arco negativo: a mentira vence, o personagem cai
  • Arco plano: o personagem não muda — muda o mundo ao redor dele (raro, difícil)

Para Não-Ficção / Memoir

O autor É o personagem principal. As 7 camadas se aplicam ao autor-narrador:

  • Ferida: o evento detonador (crise, diagnóstico, perda)
  • Mentira: o que ele acreditava que era verdade
  • Desejo: o que ele buscava
  • Necessidade: o que ele realmente precisava
  • Contradições: onde ele se sabotava
  • Voz: como ele conta a história
  • Arco: de onde saiu a onde chegou

Personagens secundários em memoir (família, médicos, amigos) precisam de pelo menos ferida + voz + função narrativa (o que eles representam na história do protagonista).

Relacionamentos como Espelhos

Cada relação principal revela uma faceta do protagonista:

  • Relação com mãe → revela vulnerabilidade
  • Relação com terapeuta → revela resistência
  • Relação com ex → revela padrão de conexão

Mapear: o que cada relação MOSTRA sobre o protagonista que ele não mostraria sozinho.


PARTE 1B — CONSTRUÇÃO DE VOZ

Voz é o que separa "livro gerado por máquina" de "livro escrito por pessoa". Personagem profundo com voz genérica = boneco bem desenhado falando como ChatGPT. A voz precisa ser CONSTRUÍDA com método, não deixada ao acaso.

Se o autor é humano (memoir, não-ficção pessoal)

Passo 1 — Coletar amostra. Pedir ao usuário 3-5 páginas de escrita natural: emails longos, posts de rede social, diário, mensagens de áudio transcritas, qualquer texto onde ele NÃO estava tentando "escrever bem". A escrita descontraída revela a voz real.

Passo 2 — Extrair padrões. Analisar a amostra e preencher:

GUIA DE VOZ — [Nome do projeto]

Tamanho médio de frase: [curto/médio/longo]
Estrutura preferida: [frases simples / compostas / mistas]
Vocabulário: [coloquial / misto / formal] — palavras que ele USA: [lista]
Palavras que ele NUNCA usaria: [lista]
Tiques verbais: [expressões recorrentes — "tipo", "na real", "olha", etc.]
Nível de ironia: [zero / sutil / constante / ácido]
Como lida com emoção: [direto / evasivo / humor pra disfarçar / abstrato]
Ritmo: [staccato (frases curtas, secas) / legato (frases longas, fluidas) / misto]
Pontuação característica: [usa reticências? travessão? ponto final seco?]
Referências culturais: [de onde vêm as comparações dele? música? games? trabalho? infância?]

Passo 3 — Codificar em regra. Transformar padrões em instruções concretas de escrita:

  • "Frases de até 15 palavras na maioria. Quando passa de 25, é deliberado."
  • "Nunca usa 'profundo', 'ressoar', 'transcender'. Usa 'foda', 'zoado', 'pesado'."
  • "Humor aparece nos piores momentos — quando a situação é grave, ele faz piada. Quando é leve, fica sério."
  • "Referências vêm de tecnologia e infância nos anos 90. Nunca de alta cultura."

Passo 4 — Checar contra cada capítulo. Após escrever, abrir 3 parágrafos aleatórios e perguntar:

  • O autor real falaria assim? Se não, onde diverge?
  • As palavras proibidas apareceram? Substituir.
  • Os tiques verbais aparecem na frequência certa? (demais = caricatura, de menos = genérico)

Se não tem amostra do autor (ficção, ghostwriting)

Passo 1 — Definir por referência. Escolher 2-3 autores publicados cuja voz se aproxima do desejado.

  • "Voz de Tati Bernardi (ácida, autodepreciativa) com dados de Johann Hari (jornalístico, pesquisado)"
  • "Voz de Clarice Lispector (introspectiva, fragmentada) com ritmo de Rubem Fonseca (seco, violento)"

Passo 2 — Decompor as referências. Para cada autor-referência, identificar:

  • O que faz a voz dele reconhecível em 1 parágrafo?
  • Qual elemento pegar e qual descartar?

Passo 3 — Sintetizar. Criar o guia de voz combinando elementos das referências + adicionando algo original (porque cópia de voz = pastiche, não voz própria).

Verificação de Consistência (toda sessão)

A voz DRIFTA ao longo de sessões longas. O Claude começa escrevendo na voz definida e gradualmente retorna ao "modo padrão". Para combater:

  1. No início de cada sessão de escrita, reler o guia de voz
  2. Reler o último capítulo escrito (para recalibrar)
  3. Após cada capítulo novo, comparar o primeiro e o último parágrafo — a voz é a mesma?
  4. Se houver drift, identificar ONDE mudou e corrigir antes de avançar

PARTE 2 — PACING (RITMO DE LEITURA)

Pacing é a velocidade percebida pelo leitor. Não é o mesmo que ritmo de frase (isso é prosa). Pacing é quanto tempo o leitor sente que passa em cada capítulo — e se esse tempo é bem gasto.

Variação de Comprimento

Capítulos:

  • Variar comprimento entre capítulos. Se todos têm 3.000 palavras, o livro é metrônomo — previsível.
  • Após um capítulo longo e denso, um curto e seco = respiro.
  • O capítulo mais curto do livro deve ser pelo menos 40% menor que a média. O mais longo, no máximo 50% maior.

Parágrafos:

  • Parágrafos de 1 linha entre parágrafos de 10 linhas = impacto visual.
  • 5 parágrafos seguidos do mesmo tamanho = monotonia.
  • Parágrafo de 1 palavra: usar no máximo 2x no livro inteiro. Mais = cacoete.

Frases:

  • Frase longa que se estende e detalha. Depois curta. Seco. O contraste é o que cria ritmo.
  • Sequência de 5+ frases curtas = staccato intencional (tensão). Não deve durar mais que 1 parágrafo.
  • Sequência de 3+ frases longas = legato (contemplação). Funciona em reflexão, não em ação.

Alternância Cena vs. Reflexão

O livro alterna entre AÇÃO (coisas acontecendo) e REFLEXÃO (o narrador processando).

Ficção:

  • Cena → cena → reflexão → cena → reflexão curta → cena → cena intensa → reflexão longa
  • Nunca 3 cenas de ação em sequência sem pausa (o leitor precisa processar)
  • Nunca 2 reflexões em sequência (o leitor precisa de ação)

Não-ficção / Memoir:

  • Narrativa → dado → reflexão pessoal → narrativa → dado → conclusão parcial
  • Nunca 3 dados/estatísticas em sequência (vira relatório)
  • Nunca 3 reflexões pessoais sem narrativa ou dado ancorado (vira diário)

Densidade por Gênero

| Gênero | Capítulo médio | Densidade | Observação | |--------|---------------|-----------|------------| | Thriller | 2.000-3.000 | Alta ação, pouca reflexão | Capítulos curtos, ganchos constantes | | Memoir | 3.000-5.000 | 60% narrativa, 40% reflexão | Variação forte entre caps | | Não-ficção dados | 4.000-6.000 | 40% dados, 30% narrativa, 30% reflexão | Dados integrados, não empilhados | | Fantasia | 4.000-7.000 | 50% ação, 30% worldbuilding, 20% reflexão | Worldbuilding distribuído, não despejado | | Lit fiction | 3.000-5.000 | 40% cena, 60% reflexão/voz | Prosa carrega mais que trama |

Diagnóstico de Pacing

Ao final de cada capítulo, perguntar:

  1. O leitor viraria a página? Se não → gancho de final fraco ou capítulo longo demais.
  2. O capítulo tem velocidade variável? Se a velocidade é constante do início ao fim → monotonia. Todo capítulo deve ter pelo menos 1 mudança de velocidade.
  3. Há respiro após intensidade? Se o capítulo anterior foi intenso e este também é intenso → fadiga emocional.
  4. O comprimento justifica o conteúdo? Se o capítulo tem 5.000 palavras mas poderia dizer o mesmo em 3.000 → cortar.

PARTE 3 — CURVA EMOCIONAL

As 7 Emoções Primárias

Toda cena evoca pelo menos uma:

| Emoção | Quando usar | Excesso causa | |--------|-------------|---------------| | Tensão | Conflito, ameaça, incerteza | Fadiga | | Esperança | Progresso, conexão, possibilidade | Ingenuidade | | Quebra | Perda, revelação devastadora, fracasso | Depressão no leitor | | Alívio | Resolução parcial, humor, descanso | Complacência | | Catarse | Clímax emocional, verdade confrontada | Melodrama | | Curiosidade | Mistério, informação retida, promessa | Frustração | | Desconforto | Verdade incômoda, vergonha alheia | Rejeição |

Mapeamento Capítulo a Capítulo

Para cada capítulo, definir:

Cap X: [Emoção dominante] → [Emoção secundária]
Pico emocional: [momento específico]
Temperatura: [1-10, onde 10 = devastador]

Regras de variação:

  • Nunca 3 capítulos consecutivos na mesma emoção dominante
  • Após um pico (temperatura 8-10), o próximo capítulo deve respirar (temperatura 4-6)
  • A catarse só funciona se houver investimento — o leitor precisa se importar ANTES de sofrer
  • O capítulo mais devastador nunca é o último — o último precisa de resolução (mesmo parcial)

High-Impact Beats

Identificar os 3-5 momentos que o leitor vai LEMBRAR:

  • Estes são os selling points do livro
  • Cada um precisa de setup (investimento) antes do payoff (impacto)
  • Setup mínimo: 2 capítulos antes do beat

Gestão de Investimento

O leitor só sofre com quem ele ama. Antes de qualquer beat devastador:

  1. O personagem foi mostrado vulnerável? (leitor sente empatia)
  2. O personagem foi mostrado tentando? (leitor respeita o esforço)
  3. O leitor entende o que está em jogo? (as stakes são claras)

Se algum dos 3 faltar → o beat não funciona → reposicionar ou adicionar setup.


PARTE 3 — TEMA

Princípio: Tema é PERGUNTA

  • "O que sobra quando tudo falha?" → tema
  • "A resiliência vence" → propaganda
  • "Por que seguimos o roteiro?" → tema
  • "Devemos questionar o sistema" → panfleto

O livro investiga a pergunta. Não responde. Se o leitor chegar ao final e souber a "resposta", o tema foi reduzido a moral de fábula.

4 Níveis de Tecelagem

Nível MACRO — A pergunta do livro inteiro Definida uma vez. Nunca declarada no texto. Todo capítulo a toca.

Nível MÉDIO — Como cada parte reflete a pergunta Cada parte/ato aborda a pergunta de um ângulo diferente:

  • Parte I: ângulo pessoal (a pergunta na vida do protagonista)
  • Parte II: ângulo estrutural (a pergunta na sociedade)
  • Parte III: ângulo existencial (a pergunta sem resposta — e o que sobra)

Nível MICRO — Como cada capítulo toca na pergunta Cada capítulo traz um aspecto da pergunta. Não repete — avança.

  • Cap 1: "Por que eu quebrei?" → Cap 5: "Por que TODOS quebraram?" → Cap 9: "Quem lucra com isso?"

Nível NANO — Imagens, metáforas, detalhes que ecoam O sistema de símbolos. Objetos, cores, ações recorrentes que funcionam como motifs:

  • Formulários = sistema burocrático impessoal
  • Cursor piscando = espera sem resposta
  • Campo em branco = vazio que ninguém preenche
  • Scroll infinito = busca sem destino

Os motifs não precisam ser explicados. O leitor os absorve inconscientemente.

Anti-Patterns (o que NÃO fazer)

  1. Tema declarado em diálogo: "Sabe o que eu aprendi? Que a constância é o que importa." → NUNCA. Mostrar, não declarar.
  2. Tema repetido sem variação: Se todo capítulo diz a mesma coisa sobre o tema, é sermão.
  3. Tema ausente: Se um capítulo inteiro não toca no tema de nenhuma forma (nem nano), ele não pertence ao livro.
  4. Tema como resposta: Se o livro termina com certeza, o tema morreu. A pergunta fica aberta — o leitor leva pra casa.

INTEGRAÇÃO DAS 3 PARTES

A fundação é um documento único onde:

  • O personagem encarna o tema (a ferida dele É a pergunta do livro)
  • A curva emocional revela o personagem (os momentos de maior impacto são onde a ferida é tocada)
  • O tema é testado pela emoção (a catarse acontece quando a pergunta é confrontada, não respondida)

Teste de integração: Se você trocar o tema do livro, o personagem principal perde sentido? Se sim, a integração está forte. Se não, a ferida do personagem e o tema do livro estão desconectados — consertar.


COMO USAR

Input: Ideia do livro, gênero, tom, protagonista (mínimo) Output: Documento de fundação com:

  1. Ficha de cada personagem principal (7 camadas) — Parte 1
  2. Guia de voz (do autor ou por referência) — Parte 1B
  3. Mapa de pacing por gênero — Parte 2
  4. Curva emocional capítulo a capítulo — Parte 3
  5. High-impact beats com setup necessário — Parte 3
  6. Tema como pergunta + 4 níveis de tecelagem — Parte 4
  7. Sistema de símbolos/motifs — Parte 4
  8. Mapa de relacionamentos como espelhos — Parte 1

Este documento é a referência permanente durante a escrita. Atualizar via manuscript-manager quando algo mudar.

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